segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Saudades do que não se viveu

Na quinta-feira passada, uma dessas deliciosas surpresas do destino me levou ao legendário estádio Azteca, na Cidade do México.

Fui a trabalho. Dois dias antes, o escritório do UNICEF no México havia lançado uma campanha de mobilização social em favor de la niñez mexicana, chamada Regalos de Corazón. A iniciativa ganhou apoio de várias celebridades nacionais, entre elas o atual goleiro (aqui divertidamente chamado portero) da seleção mexicana, Memo Ochoa.

A caminho do estádio, fui sentindo crescer em mim o ritmo das batidas do coração, a respiração foi se tornando ofegante. Não, não era a altitude de 2,2 mil metros acima do nível do mar. Era o aproximar-se de um grito imenso, de uma emoção pertencente a milhões de pessoas.

Percorríamos o Periférico (uma avenida enorme que deveria abraçar a gigantesca cidade, mas que foi engolida por ela). Cada metro que ganhávamos, era como abrir um baú de infância e voltar a sentir uma excitação de menina, dessas que antecedem a abertura do presente de Natal, o dia de volta às aulas na sexta série primária, uma viagem de férias, um passeio de bicicleta...

Ali seguíamos, rumo ao templo do futebol, ao cenário da final da Copa de 70, ao 4 x 1 contra a Itália que nunca vi, simplesmente pelo fato de que eu não era ainda nascida naquele 21 de junho (ainda tardariam quase 24 meses para que eu viesse ao mundo).

Era 20 de setembro de 2007. E aquela quinta-feira era um dia comum. O estádio estava entregue apenas a seus funcionários. Homens que preguiçosamente voltavam do almoço e cuidavam de olhar o céu. Em bandos, começavam a preparar a capa que cobre gramado cuidado como um tesouro verde. Uma forte chuva de fim de verão anunciava-se, com o sol brincando de esconde-esconde com as nuvens. A temperatura era alta e o tempo, abafado. Havia também algumas (poucas) mulheres, senhoras da limpeza do tempo Azteca.

Estacionamos o carro, demos uma pequena volta e começamos a descer a entrada para o campo...O corredor estava escuro, iluminado apenas pela luz que vinha das duas extremidades, uma que agora ficava a nossas costas e a outra à frente, ainda a alguns passos de distância. As paredes do caminho estão ilustradas por cartazes com resultados de jogos realizados no estádio, a maioria deles, de amistosos. Também há uma sessão dedicada a vencedores de campeonatos regionais. Entre eles, muitos times brasileiros (Inter, Botafogo, Flamengo, Cruzeiro...).

Ao final do corredor, à esquerda está a entrada para a área dedicada à imprensa, um caminho guardado por uma imagem da Virgem de Guadalupe. À direita, fotos de momentos históricos do estádio, divididos por décadas. Há imagens de shows de Michael Jackson e do U2, jogos do América, a equipe “dona” do estádio.

No mural dedicado aos anos 70, ao centro, está uma foto de Pelé e Tostão, abracados. Parei. Um arrepio percorreu minha coluna, eriçou os pêlos dos meus braços. Excitação de menina...

Era já o fim do túnel e aí, finalmente à luz do sol, as entradas para os vestiários e as estreitas escadas em caracol que levam ao gramado. Eu mal podia acreditar.

Subimos pela rampa lateral e meu primeiro impulso era saltar no gramado e dar uma cambalhota. Mas estava de salto alto e assim não se pode subir no “tapete sagrado”. Sorte ou azar, o tempo que tomei para tirar os sapatos foi suficiente para arrefecer a vontade de fazer malabarismos. Apenas respirei fundo...

E pisei a grama da final de 70. Pisei com firmeza, com alegria da menina que ainda não era naquele 21 de junho. Firmeza de alma, de pisar um lugar mágico, que guarda em si memórias de tantas emoções. Quem sabe pisei o gramado com a alma que já existia naquele junho de 1970 (sabe-se lá por onde eu andava quando ainda não era um corpo de menina...), com a memória do que nunca vi.

Na volta, com fome, queimada do primeiro sol forte que experimentei no México desde que cheguei, me perguntei como era possível sentir saudades daquilo que não vivi...

De volta ao Periférico, vim contando minhas lembranças, dessa vez físicas, do futebol no México: em 86, a derrota do Brasil de Sócrates e Zico para a França de Platini, nos penâltis. Posso me lembrar como se fosse hoje, o desenho que fiz na minha agenda de menina já então adolescente. Foi quando aprendi a escrever adeus em francês. “Au revoir”.

3 comentários:

Unknown disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Unknown disse...

Cabroninha, primeiro de tudo, sinto sua falta em muitos momentos do dia e vc sabe disso. Conhecer o México com os seus olhos tem sido de arrepiar (te copiando na descrição da excitação de menina - adorei, claro)! Aliás, vc falou tanto de meninice, que acho que, na verdade, esse país está te levando muito para dentro de si. E o "Elesbão" só pode ser o seu alter-ego. :) Talvez, o próximo texto poderia ter como título "Saudades do que se viveu". SEria uma boa oportunidade de honrar as suas raízes (com língua quente)!! Muitos abrazos de pescuecito pra vc,

Unknown disse...

Oi, Rachel!
Rê (sua irma) me deu o endereço do blog e eu adorei. Seus relatos me fazem ter vontade de visitar os lugares e, quem sabe, sentir emoçoes como as que vc sente. Gostei muito, continue escrevendo.
Beijo