Na quinta-feira passada, uma dessas deliciosas surpresas do destino me levou ao legendário estádio Azteca, na Cidade do México.
Fui a trabalho. Dois dias antes, o escritório do UNICEF no México havia lançado uma campanha de mobilização social em favor de la niñez mexicana, chamada Regalos de Corazón. A iniciativa ganhou apoio de várias celebridades nacionais, entre elas o atual goleiro (aqui divertidamente chamado portero) da seleção mexicana, Memo Ochoa.
A caminho do estádio, fui sentindo crescer em mim o ritmo das batidas do coração, a respiração foi se tornando ofegante. Não, não era a altitude de 2,2 mil metros acima do nível do mar. Era o aproximar-se de um grito imenso, de uma emoção pertencente a milhões de pessoas.
Percorríamos o Periférico (uma avenida enorme que deveria abraçar a gigantesca cidade, mas que foi engolida por ela). Cada metro que ganhávamos, era como abrir um baú de infância e voltar a sentir uma excitação de menina, dessas que antecedem a abertura do presente de Natal, o dia de volta às aulas na sexta série primária, uma viagem de férias, um passeio de bicicleta...
Ali seguíamos, rumo ao templo do futebol, ao cenário da final da Copa de 70, ao 4 x 1 contra a Itália que nunca vi, simplesmente pelo fato de que eu não era ainda nascida naquele 21 de junho (ainda tardariam quase 24 meses para que eu viesse ao mundo).
Era 20 de setembro de 2007. E aquela quinta-feira era um dia comum. O estádio estava entregue apenas a seus funcionários. Homens que preguiçosamente voltavam do almoço e cuidavam de olhar o céu. Em bandos, começavam a preparar a capa que cobre gramado cuidado como um tesouro verde. Uma forte chuva de fim de verão anunciava-se, com o sol brincando de esconde-esconde com as nuvens. A temperatura era alta e o tempo, abafado. Havia também algumas (poucas) mulheres, senhoras da limpeza do tempo Azteca.
Estacionamos o carro, demos uma pequena volta e começamos a descer a entrada para o campo...O corredor estava escuro, iluminado apenas pela luz que vinha das duas extremidades, uma que agora ficava a nossas costas e a outra à frente, ainda a alguns passos de distância. As paredes do caminho estão ilustradas por cartazes com resultados de jogos realizados no estádio, a maioria deles, de amistosos. Também há uma sessão dedicada a vencedores de campeonatos regionais. Entre eles, muitos times brasileiros (Inter, Botafogo, Flamengo, Cruzeiro...).
Ao final do corredor, à esquerda está a entrada para a área dedicada à imprensa, um caminho guardado por uma imagem da Virgem de Guadalupe. À direita, fotos de momentos históricos do estádio, divididos por décadas. Há imagens de shows de Michael Jackson e do U2, jogos do América, a equipe “dona” do estádio.
No mural dedicado aos anos 70, ao centro, está uma foto de Pelé e Tostão, abracados. Parei. Um arrepio percorreu minha coluna, eriçou os pêlos dos meus braços. Excitação de menina...
Era já o fim do túnel e aí, finalmente à luz do sol, as entradas para os vestiários e as estreitas escadas em caracol que levam ao gramado. Eu mal podia acreditar.
Subimos pela rampa lateral e meu primeiro impulso era saltar no gramado e dar uma cambalhota. Mas estava de salto alto e assim não se pode subir no “tapete sagrado”. Sorte ou azar, o tempo que tomei para tirar os sapatos foi suficiente para arrefecer a vontade de fazer malabarismos. Apenas respirei fundo...
E pisei a grama da final de 70. Pisei com firmeza, com alegria da menina que ainda não era naquele 21 de junho. Firmeza de alma, de pisar um lugar mágico, que guarda em si memórias de tantas emoções. Quem sabe pisei o gramado com a alma que já existia naquele junho de 1970 (sabe-se lá por onde eu andava quando ainda não era um corpo de menina...), com a memória do que nunca vi.
Na volta, com fome, queimada do primeiro sol forte que experimentei no México desde que cheguei, me perguntei como era possível sentir saudades daquilo que não vivi...
De volta ao Periférico, vim contando minhas lembranças, dessa vez físicas, do futebol no México: em 86, a derrota do Brasil de Sócrates e Zico para a França de Platini, nos penâltis. Posso me lembrar como se fosse hoje, o desenho que fiz na minha agenda de menina já então adolescente. Foi quando aprendi a escrever adeus em francês. “Au revoir”.
segunda-feira, 24 de setembro de 2007
quarta-feira, 12 de setembro de 2007
México, primeiras impressões
México, primeiras impressões
Depois de quase uma semana na Cidade do México, me sinto confortável o suficiente para compartilhar minhas primeiras impressões desta cidade que vê nascer, crescer e morrer gente – das mais variadas formas, incluindo uma curiosa e criativa forma de tortura que consistia em colocar a pessoa sob uma goteira por dias e dias até que a água, gotejando, ou enlouquecesse o sujeito ou furasse seu crânio - há, mais ou menos cinco mil anos.
Bem, algumas lendas sobre a cidade são pura verdade. O trânsito é um caos absoluto e há engarrafamentos pela cidade a qualquer hora do dia ou da noite. Agora, nas águas de setembro que fecham o verão, depois da chuva da tarde, a cidade pára. Nas pesetas, os velhos micro-onibus branco-verde, as pessoas evaporam, molhadas, suadas, apertadas e quase surdas, consequência drástica da música em altíssimo volume que são obrigadas a escutar por obra e graça dos loucos motoristas, que parecem animar-se a cometer ainda piores insanidades ao som da salsa ou do reggaetone. Nos carros, todos assumem uma mesma posição: olhos atentos e nervosos e o braço esticado, pressionando, claro, a buzina.
Outra lenda verdadeira, há gente demais. Afinal, são mais de 20 milhões de pessoas no que se poderia chamar de grande Cidade do México. Gente vinda de todas as partes do país, com seus sotaques, suas cores, buscando uma vida melhor (???). A cidade treme e afunda. Dizem que não pelo excesso de pessoas, mas porque os espanhóis construíram uma das maiores metrópoles do mundo sobre um terreno onde antes havia um lago. A terra é arenosa e segue se acomodando. Sem duvida, o peso de milhões de almas, milhares de peseras e carros importados, ajuda.
Mais uma lenda verdadeira: a comida mexicana é MARAVILHOSA. Sim, é verdade. Os restaurantes texanos que temos no Brasil nos apresentam uma pequeníssima parte dessa fundada há cinco milênios. A começar pelo fato de que são eles, os mexicanos, os inventores do chocolate (ave, aztecas!) e os descobridores do tomate (perguntem-se o que seriam os italianos sem os mexicanos…). Os mexicanos têm um profundo respeito por sua cultura gastronomica. Cultivam pratos por época do ano (agora é tempo de chile con nogales, chile com nozes) e podem gastar horas e horas conversando e comparando o sabor dos chiles verdes e marrons, os sabores e texturas dos queijos, região por região, ou almoçando tacos com os mais variados recheios, de pé, em seus ternos Zegna, nos chiringuitos espalhados pelas ruas. Sim, eles AMAM as pimentas e avaliam o mole (o mais famosos molhos da comida mexicana) pela quantidade de picante. Todos os pratos em todos os restaurantes trazem seu aderezo de pimenta à parte. E, sim, isso inclui as comidas importadas, rápidas, como as pizzas Domino' s, nas suas indefectíveis caixas azul-vermelho-branco, que chegam acompanhadas de um potinho de salsa picante.
Algumas lendas nãose mostraram verdadeiras – ainda. Rezam que a cidade é super poluida (sim, é, mas nao se nota pelo menos não nesta época do ano quando há chuva e vento) e que é super pobre. É, mas como brasileiros não seremos nos a apontar-lhes o dedo. Há menos meninos e meninas nas ruas por aqui do que nas ruas das grandes cidades brasileiras. Os engraxates, vendedores de flores, de chicletes nos sinais são pobres, sim, mas são adultos..
Há ainda outras lendas por criar, instituições nacionais que não estão presentes nos guias de viagem. Uma delas, muito, muito curiosa, é o fato de que dezenas de mulheres, a toda hora, no metrô, nos onibus, no meio das ruas sacam de suas bolsas um pequeno estojo. Daí tiram um espelhinho e uma pinça e zaz!, começam a fazer as sombrancelhas, assim, arriscadamente, sem medo do movimento dos seus entupidos meios de transporte, elas vão ficando mais bonitas – ou com menos pêlos, pelo menos. O metrô vai balançando, freando loucamente e elas ali, puxando fio por fio, levantando e comprimindo as sombrancelhas a ver se ficaram lindas. Se pudesse, elegeria essa prática como um patrimonio imaterial da humanidade. Me parece genial e é parte do culto que as mexicanas tem com a região dos olhos e inclui, ainda outra curiosidade: entre as mulheres, digamos, de mais baixa renda, há uma combinacão obrigatória entre a cor da roupa e a cor da sombra sobre os olhos. Sim, isso quer dizer que se a mulher se veste de rosa, aí, está, sombra rosa! Com algumas roupas, isso se tornal fatal. Nem é preciso mencionar o amarelo, o verde claro…
Sobre o futebol, ainda me faz falta mais algum tempo. Sinto entre os mexicanos um quê de torcedores sofredores, mas reconheço: é cedo demais para abordar um tema tão, tão delicado para nos e nossos hermanos latino-americanos.
Lendas ou não, este é um povo como o mole, seu molho preferido: forte, escuro, denso e doce.
Qual seria nosso molho favorito?
Depois de quase uma semana na Cidade do México, me sinto confortável o suficiente para compartilhar minhas primeiras impressões desta cidade que vê nascer, crescer e morrer gente – das mais variadas formas, incluindo uma curiosa e criativa forma de tortura que consistia em colocar a pessoa sob uma goteira por dias e dias até que a água, gotejando, ou enlouquecesse o sujeito ou furasse seu crânio - há, mais ou menos cinco mil anos.
Bem, algumas lendas sobre a cidade são pura verdade. O trânsito é um caos absoluto e há engarrafamentos pela cidade a qualquer hora do dia ou da noite. Agora, nas águas de setembro que fecham o verão, depois da chuva da tarde, a cidade pára. Nas pesetas, os velhos micro-onibus branco-verde, as pessoas evaporam, molhadas, suadas, apertadas e quase surdas, consequência drástica da música em altíssimo volume que são obrigadas a escutar por obra e graça dos loucos motoristas, que parecem animar-se a cometer ainda piores insanidades ao som da salsa ou do reggaetone. Nos carros, todos assumem uma mesma posição: olhos atentos e nervosos e o braço esticado, pressionando, claro, a buzina.
Outra lenda verdadeira, há gente demais. Afinal, são mais de 20 milhões de pessoas no que se poderia chamar de grande Cidade do México. Gente vinda de todas as partes do país, com seus sotaques, suas cores, buscando uma vida melhor (???). A cidade treme e afunda. Dizem que não pelo excesso de pessoas, mas porque os espanhóis construíram uma das maiores metrópoles do mundo sobre um terreno onde antes havia um lago. A terra é arenosa e segue se acomodando. Sem duvida, o peso de milhões de almas, milhares de peseras e carros importados, ajuda.
Mais uma lenda verdadeira: a comida mexicana é MARAVILHOSA. Sim, é verdade. Os restaurantes texanos que temos no Brasil nos apresentam uma pequeníssima parte dessa fundada há cinco milênios. A começar pelo fato de que são eles, os mexicanos, os inventores do chocolate (ave, aztecas!) e os descobridores do tomate (perguntem-se o que seriam os italianos sem os mexicanos…). Os mexicanos têm um profundo respeito por sua cultura gastronomica. Cultivam pratos por época do ano (agora é tempo de chile con nogales, chile com nozes) e podem gastar horas e horas conversando e comparando o sabor dos chiles verdes e marrons, os sabores e texturas dos queijos, região por região, ou almoçando tacos com os mais variados recheios, de pé, em seus ternos Zegna, nos chiringuitos espalhados pelas ruas. Sim, eles AMAM as pimentas e avaliam o mole (o mais famosos molhos da comida mexicana) pela quantidade de picante. Todos os pratos em todos os restaurantes trazem seu aderezo de pimenta à parte. E, sim, isso inclui as comidas importadas, rápidas, como as pizzas Domino' s, nas suas indefectíveis caixas azul-vermelho-branco, que chegam acompanhadas de um potinho de salsa picante.
Algumas lendas nãose mostraram verdadeiras – ainda. Rezam que a cidade é super poluida (sim, é, mas nao se nota pelo menos não nesta época do ano quando há chuva e vento) e que é super pobre. É, mas como brasileiros não seremos nos a apontar-lhes o dedo. Há menos meninos e meninas nas ruas por aqui do que nas ruas das grandes cidades brasileiras. Os engraxates, vendedores de flores, de chicletes nos sinais são pobres, sim, mas são adultos..
Há ainda outras lendas por criar, instituições nacionais que não estão presentes nos guias de viagem. Uma delas, muito, muito curiosa, é o fato de que dezenas de mulheres, a toda hora, no metrô, nos onibus, no meio das ruas sacam de suas bolsas um pequeno estojo. Daí tiram um espelhinho e uma pinça e zaz!, começam a fazer as sombrancelhas, assim, arriscadamente, sem medo do movimento dos seus entupidos meios de transporte, elas vão ficando mais bonitas – ou com menos pêlos, pelo menos. O metrô vai balançando, freando loucamente e elas ali, puxando fio por fio, levantando e comprimindo as sombrancelhas a ver se ficaram lindas. Se pudesse, elegeria essa prática como um patrimonio imaterial da humanidade. Me parece genial e é parte do culto que as mexicanas tem com a região dos olhos e inclui, ainda outra curiosidade: entre as mulheres, digamos, de mais baixa renda, há uma combinacão obrigatória entre a cor da roupa e a cor da sombra sobre os olhos. Sim, isso quer dizer que se a mulher se veste de rosa, aí, está, sombra rosa! Com algumas roupas, isso se tornal fatal. Nem é preciso mencionar o amarelo, o verde claro…
Sobre o futebol, ainda me faz falta mais algum tempo. Sinto entre os mexicanos um quê de torcedores sofredores, mas reconheço: é cedo demais para abordar um tema tão, tão delicado para nos e nossos hermanos latino-americanos.
Lendas ou não, este é um povo como o mole, seu molho preferido: forte, escuro, denso e doce.
Qual seria nosso molho favorito?
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