quarta-feira, 12 de setembro de 2007

México, primeiras impressões

México, primeiras impressões

Depois de quase uma semana na Cidade do México, me sinto confortável o suficiente para compartilhar minhas primeiras impressões desta cidade que vê nascer, crescer e morrer gente – das mais variadas formas, incluindo uma curiosa e criativa forma de tortura que consistia em colocar a pessoa sob uma goteira por dias e dias até que a água, gotejando, ou enlouquecesse o sujeito ou furasse seu crânio - há, mais ou menos cinco mil anos.

Bem, algumas lendas sobre a cidade são pura verdade. O trânsito é um caos absoluto e há engarrafamentos pela cidade a qualquer hora do dia ou da noite. Agora, nas águas de setembro que fecham o verão, depois da chuva da tarde, a cidade pára. Nas pesetas, os velhos micro-onibus branco-verde, as pessoas evaporam, molhadas, suadas, apertadas e quase surdas, consequência drástica da música em altíssimo volume que são obrigadas a escutar por obra e graça dos loucos motoristas, que parecem animar-se a cometer ainda piores insanidades ao som da salsa ou do reggaetone. Nos carros, todos assumem uma mesma posição: olhos atentos e nervosos e o braço esticado, pressionando, claro, a buzina.

Outra lenda verdadeira, há gente demais. Afinal, são mais de 20 milhões de pessoas no que se poderia chamar de grande Cidade do México. Gente vinda de todas as partes do país, com seus sotaques, suas cores, buscando uma vida melhor (???). A cidade treme e afunda. Dizem que não pelo excesso de pessoas, mas porque os espanhóis construíram uma das maiores metrópoles do mundo sobre um terreno onde antes havia um lago. A terra é arenosa e segue se acomodando. Sem duvida, o peso de milhões de almas, milhares de peseras e carros importados, ajuda.

Mais uma lenda verdadeira: a comida mexicana é MARAVILHOSA. Sim, é verdade. Os restaurantes texanos que temos no Brasil nos apresentam uma pequeníssima parte dessa fundada há cinco milênios. A começar pelo fato de que são eles, os mexicanos, os inventores do chocolate (ave, aztecas!) e os descobridores do tomate (perguntem-se o que seriam os italianos sem os mexicanos…). Os mexicanos têm um profundo respeito por sua cultura gastronomica. Cultivam pratos por época do ano (agora é tempo de chile con nogales, chile com nozes) e podem gastar horas e horas conversando e comparando o sabor dos chiles verdes e marrons, os sabores e texturas dos queijos, região por região, ou almoçando tacos com os mais variados recheios, de pé, em seus ternos Zegna, nos chiringuitos espalhados pelas ruas. Sim, eles AMAM as pimentas e avaliam o mole (o mais famosos molhos da comida mexicana) pela quantidade de picante. Todos os pratos em todos os restaurantes trazem seu aderezo de pimenta à parte. E, sim, isso inclui as comidas importadas, rápidas, como as pizzas Domino' s, nas suas indefectíveis caixas azul-vermelho-branco, que chegam acompanhadas de um potinho de salsa picante.

Algumas lendas nãose mostraram verdadeiras – ainda. Rezam que a cidade é super poluida (sim, é, mas nao se nota pelo menos não nesta época do ano quando há chuva e vento) e que é super pobre. É, mas como brasileiros não seremos nos a apontar-lhes o dedo. Há menos meninos e meninas nas ruas por aqui do que nas ruas das grandes cidades brasileiras. Os engraxates, vendedores de flores, de chicletes nos sinais são pobres, sim, mas são adultos..

Há ainda outras lendas por criar, instituições nacionais que não estão presentes nos guias de viagem. Uma delas, muito, muito curiosa, é o fato de que dezenas de mulheres, a toda hora, no metrô, nos onibus, no meio das ruas sacam de suas bolsas um pequeno estojo. Daí tiram um espelhinho e uma pinça e zaz!, começam a fazer as sombrancelhas, assim, arriscadamente, sem medo do movimento dos seus entupidos meios de transporte, elas vão ficando mais bonitas – ou com menos pêlos, pelo menos. O metrô vai balançando, freando loucamente e elas ali, puxando fio por fio, levantando e comprimindo as sombrancelhas a ver se ficaram lindas. Se pudesse, elegeria essa prática como um patrimonio imaterial da humanidade. Me parece genial e é parte do culto que as mexicanas tem com a região dos olhos e inclui, ainda outra curiosidade: entre as mulheres, digamos, de mais baixa renda, há uma combinacão obrigatória entre a cor da roupa e a cor da sombra sobre os olhos. Sim, isso quer dizer que se a mulher se veste de rosa, aí, está, sombra rosa! Com algumas roupas, isso se tornal fatal. Nem é preciso mencionar o amarelo, o verde claro…

Sobre o futebol, ainda me faz falta mais algum tempo. Sinto entre os mexicanos um quê de torcedores sofredores, mas reconheço: é cedo demais para abordar um tema tão, tão delicado para nos e nossos hermanos latino-americanos.

Lendas ou não, este é um povo como o mole, seu molho preferido: forte, escuro, denso e doce.

Qual seria nosso molho favorito?

8 comentários:

Vicente Saldanha disse...

Olá Rachel. Vejo que os ares do México lhe trouxeram forte inspiração tal como a gastronomia e as fortes e vivas cores que embelezam a paisagem e o povo mexicano. Viva Frida!!!!
Belo e forte o seu Blog. Você é uma pessoa muito criativa.
Cuide de seus sonhos.
Bjs,
Vicente.

Unknown disse...

Que lindo Rachel! Você nunca pensou em se dedicar a escrever um livro? Quem sabe não é hora.
Um beijo
Else

Baião de duas disse...

Oi, Rá!
Bom te ouvir.
Beijos,
Vê.

Unknown disse...

Oi Rachel, muito legal o seu blog--super moderno isto de ter blog ...

Acho que a Else tem razão, esta na hora de escrever um livro! Um dia destes eu ainda vou escrever um sobre as diferenças, ou maravilhas da cultura como você coloca, que nem percebemos existir, pois já são parte do cotidiano.

Uma das minhas favoritas aqui é a questão da fila. Logo após vir morar de novo no Brasil estava numa fila para o banheiro no conjunto nacional. Umas três ou quatro pessoas tentaram entrar na minha frente, e depois pareciam surpresas ao descobrir que sim, eu estava de fato na fila.

O pórém era que eu estava na fila "a la gringa", com pouco mais de 1 metro de distância da última pessoa . . . Depois os brasileiros nos EUA ficam conhecidos como muito "gurdentos", ficando quase encostados uns nos outros nas filas. O espaço pessoal é quase nulo aqui no Brasil.

Por isso o Carnaval aqui é muito mais legal!

Saudades.

Dani :)

Elizabeth Pazito Brandão disse...

Ah, as cores da latino-américa! São fortes e onipresentes. As que te impressionaram nos olhos femininos mexicanos, me impressionaram nas comidas peruanas e bolivianas. Sanduíches fartíssimos e cheios de cores. Nada do minimalismo gastronômico europeu que adotamos como "chic no úrtimo".Molhos picantes e densos, bem distantes do "bem star" gnt fashion que comanda nossa busca pela saúde. Ufa! é por isso que soy loca por ti América...
bjs e quero mais!
Beth

Unknown disse...

Certa vez, um diplomata mexicano tava me dizendo, durante um papo sobre futebol, que era muito evidente entre eles a carga cultural do sacrifício. Os astecas tinham essa coisa de abaixar a cabeça e levar uma porretada em nome de um bem maior. Enfim, ele disse que os mexicanos eram assim. O tal do "jogamos como nunca, perdemos como sempre". Eles têm mesmo uma onda de curtir o sofrimento.

Besos. Lauro.

Vicente Saldanha disse...

Olá Rachel.
Movida pelos "Regalos de Corazón" você pode viver o seu coração mais profundo, antes mesmo de você ter chegado.
Quantas emoções você viveu. Até mesmo o uso do salto alto. Que chique!!!!!!!!
Vejo que fizeste um grande carrossel em sua uinfância. Os Deuses Aztecas estão levando-a à viagens emocionantes-e-emocionais".
Com tudo isso e, apesar disso, aguardo o seu retorno. É aquela história do riscar os dias no calendário.
Beijos e, boas viagens fantásticas.
Vicente.

Alexandre Magno disse...

Rachel,

Já havia estado aqui antes, mas sem tempo para deixar meus rastros aqui. Parabéns pelo texto e por dividir conosco suas emoções e impressões.

Fica, entretanto, uma pergunta: "por que parou, parou por quê?" rs. rs. rs. "Náo deixe o blog morrer..."... Beijos musicais.

Alexandre Magno